Quando se lê “Sangue, ossos & manteiga” se percebe logo de cara que Gabrielle não é só chef de um dos restaurantes mais badalados de Nova York. Ela é também escritora (mestre em Ficção).

O subtítulo: “a educação involuntária de uma chef relutante” mostra a que veio. Gabrielle mostra em sua escrita (fluida, deliciosa, com cheiro de cozinha fumegante) que essa profissão que está em alta, tem muito mais do que manteiga de pratos deliciosamente nomeados (não só de galettes e de brunchs vive-se), e o glamour da cozinha passa antes pela pia da cozinha.

Para mim o livro de Gabrielle tem uma das coisas mais importantes em literatura “de cozinha”: cheiro. O texto exala desde o estrume das fazendas até as três gorduras mais-que-perfeitas: manteiga, azeite de oliva e o prosciutto ou toucinho.

Ela mostra que além de amanteigados pensamentos, quem quer se meter nessa cozinha, tem que saber lidar com ossos e sangue. Ela mostra as marcas das panelas quentes, os dedos cortados, a exaustão:

“Você quer ter seu próprio restaurante? Quer ter um relacionamento próximo com seu fornecedor? Cercar-se de distribuidores de vinho que entendem de poesia e filosofia? Preparar sua própria ricota e curar seu próprio toucinho? Quer ser um chef-proprietário? Não são as dezoito horas de trabalho por dia e a cozinha quente que vão levar a melhor sobre você. É isso tudo mais um homem seminu de um metro e noventa e mais de cem quilos em frente ao seu restaurante, abrindo buracos até o porão e regando a hera”.

Não é Master Chef com choro e torcida: é trabalho árduo e muita cozinha. Sua escrita é entremeada de sabores e odores, mas também de muita vida que pulsa, escrita cultivada em canteiro de ervas: “Cuidado com o que você aprende a fazer bem, porque é o que vai fazer pelo resto da vida”, é o conselho que ouve de uma colega escritora.

Gabrielle nos oferece sua cozinha e seus pensamentos, nos mostra como cada um deve conviver com suas fomes, conhecer do que se alimenta, com o que alimenta a sua vida. Ela nos ensina a desvendar as muitas fomes que habitam nossos corpos.

Minha única tristeza:  (ainda) não ter o prazer de ter sentado à mesa servida por ela.

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