O firmamento se desfez.
Deitada no telhado, olhos descrentes tentavam ainda se apegar ao último fio de luz que escorria da abóbada escura que se estendia sobre o mundo: não conseguiram. Aturdida, sacudiu a poeira celeste das vestes, e desceu, tão fundo que pode sentir o cheiro úmido e quente do centro da Terra. Tateou as paredes em brasa, e desvestiu a roupa que o corpo escondia. Nua, esperou que algo acontecesse: uma catástrofe, o fim ao alcance das mãos. Mas nada. Escorregou pelo solo, e fechou os olhos em busca de uma segurança que já não tinha. Sentia a pulsação nas têmporas, no peito, mas nada sabia da vida. O céu desfeito deixava o mundo nu. Estrelas desterradas, ou talvez desceladas, palavra desconhecida para dizer algo que não pode ser dito. Elas não tinham mais céu, soltas na terra. Onde irão descansar as estrelas extraditadas? Você. Eu. Na cidade adormecida, os corpos na cama desfeita.

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