Após ouvir a escritora uruguaia Claudia Amengual discorrer sobre seus livros e personagens, no evento Mulher & Literatura (2015 – UCS), fiquei encantada e curiosa. A escritora faz parte de um grupo seleto de escritores latino-americanos, o Bogotá39.

Pois bem: “Cartagena”(Alfaguara-2015), é sobre erros, pecados e perdões. Mas não só isso. É sobre amor e vida, sobre escolhas, erros e acertos, morte e libertação. É uma homenagem ao amado Gabriel García Márquez. E não é isso.

Lembro que a autora disse que o livro buscava respostas para pelo menos uma pergunta: tudo pode ser perdoado? Pergunta gigante.

Franco Rossi retorna à Cartagena com a esperança, talvez, de voltar também no tempo? Rossi é acompanhado por Elviejo, seu velho pai, nessa jornada. Alena é a mulher que ficou nesse passado, nessa cidade de cores e cheiros.

O romance é resultado de um trabalho minucioso de Claudia Amengual, que devassa seus personagens como escancarasse janelas e portas: colocando a nudez e os medos assim, em pleno sol das índias.

Os diálogos são deliciosamente engraçados (quando foi a última vez que eu consegui gargalhar numa leitura?), a relação entre Rossi e Elviejo, e entre Rossi e seus filhos, traz lágrimas aos olhos: de riso, de concretude literária, de corpos-com-cheiro, de vida mesmo.

Entre poesia e riso, pecados e perdões, acompanhamos a geografia doce e suada de Cartagena. “Alena fue aire en tu vida. Aire como este aire endulzado del Caribe que ahora entra por tu ventana. No era amor, qué va, cómo podia serlo. Estuvieron juntos apenas unos días. El amor necessita más para cuajar. El amor es cosa seria”.

Entonces surgió aquel temor nacido en las tripas, un temor que al llegar a la garganta ya era un pánico del infierno.”

O diálogo-monólogo em que Alena mostra à Rossi todas as consequências dos atos irresponsáveis dele é um dos trechos mais tocantes do livro. “No queria que se volviera a su tierra sin saber de mi boca el mal que há causado” .

E o momento de desabafo de Rossi com seus filhos é libertador: “Háganse hombres de una vez!”.

“Cartagena” tem aquele poder que Aristóteles nos ensinou: a catarse. Tudo pode ser perdoado? De minha parte, percorri “Cartagena” em busca de respostas, e o que encontrei foi a certeza de que devemos sempre ir mais fundo: na vida e na escrita. E isso Claudia Amengual consegue.

Quem quiser conhecer mais: www.claudiaamengual.com.uy

2 comentários em “Gabo em Cartagena

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