Permitam-me ser egoísta. Numa pandemia se pode. Não se deveria talvez, mas alguns pequenos egoísmos nos salvam dos grandes (plagiando Clarice). Essa quarentena está me fazendo bem. Não gostaria que fizesse mal a ninguém, mas sabemos que “querer é poder”, só, não funciona.
Sim. Todos nós, de alguma forma, estamos doentes. Alguns ficarão doentes de outras tantas. Alguns morrerão, alguns estão a morrer, e hoje então, escolho viver.
Não quero aqui reforçar a dor: essa vem, virá, irá e voltará. Não quero falar dessa dor maior: essa, cada um sente à sua maneira.
Sim, a economia.
Sim, a pandemia.
Quero aqui falar sobre mim, desse egoísmo de saber-se.
Há quanto tempo você, como eu, não tirava um tempo só seu? Há quanto tempo você não era obrigada a ficar longe de todos aqueles que por muitos anos, sempre foram tão perto? Quando foi que você desejou trabalhar em casa, sem perceber também, que casa é casa? Quando você cozinhou sua comida favorita? Quando você escolheu um cardápio novo, feito todo por você, para você? Quando foi a última vez que você pensou na casa da sua avó? A primeira comida que você lembra da sua mãe? O cheiro da casa cheia, casa vazia, o cheiro?
Quando foi a última vez que você se deixou estar, ser, assim, sem nenhum futuro, sem nenhum dia seguinte, sem amanhã? Sem nada querer, a não ser, viver?
Eu, que sempre achei que não tinha memória de infância, comecei a me (re)criar. Comecei a me lembrar. Talvez até, me reinventar.
Mas foram cheiros.
Cheiro de pão.
Cheiro de corpo.
Cheiro de carne na brasa, em brasa, cheiro de fogo, cheiro de mãe, de pai, de irmãos.
Cheiro de uma cidade longínqua, com sua terra vermelha, com calor incessante. Cheiro de noites cheias de besouros. Cheiros.
Tantos cheiros que não cabem em mim. Transbordaram. Passaram de casa em casa, os vizinhos, a rua, as árvores. Cheiro de balanço em fim de dia, de escalada em galhos, de grama de verão, cortada assim, em pleno outono. Cheiro de mim. Um “mim” tão eu que até eu mesma, me desconheci.
(re)Conheci. Conheci.
E me fez tão bem me conhecer de novo, que só isso já serviu de cura. Mesmo que eu adoeça. Mesmo que eu, outra vez (e vai acontecer), me desconheça. De uma doença que não é vírus, é afastamento de si. Afastamento de vida.
Eu não quero sobreviver. Eu quero (re)viver.
Sim, estou sendo egoísta. Mas quero que esse cheiro de vida, esse ar, volte a nos inspirar.
A nos respirar.
Respiremos.
Estamos todos doentes.

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