Na compulsão de varrer aquele deserto inteiro que tomara conta da casa, ela abriu a porta da frente e varreu varreu varreu varreu poeira, areia, e tempo. Depois de 41 dias varrendo, descobriu que não conseguiria. O movimento de varrer só abria mais espaço para o deserto avançar: eram dunas que se movimentavam para dentro daqueles dois únicos cômodos. A sala e a cozinha.
Não havia quarto: ela nunca dormia.
Era uma única entrada e nenhuma saída.
Seus braços já não tinham outra função a não ser, varrer.
Quando descobriu que não conseguiria, que o deserto era mais denso, mais dentro, e mais sorrateiro que ela, chorou. Chorou e deixou que a vassoura tombasse a seus pés.
No seu choro, a chuva.
Da sua chuva, o vento.
O vento arrancou a porta e escancarou a única janela, aquela que iluminava a cozinha. O vento soprou vassoura, areia, deserto e tempo. O vento soprou também seus braços inertes e inconscientes. E insuflou asas. A chuva do seu choro foi Nilo (a)fundando uma civilização. Lavou poeira e tempo. A areia fez contorno de (a)mar. Porta e janela arrancadas, a casa era apenas casca.
Ela, de asas, chuva e choro, ouviu a voz:
– Sol-te.
Respondeu, em pleno voo:
– Lua-me.

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