Dentre as muitas coisas que viveu, cito apenas duas: Antonin Artaud fez parte do movimento surrealista, e foi encontrado morto em 1948, em seu quarto, agarrado a um sapato.

Das muitas coisas que escreveu (e dos tantos textos que suscitou em pensadores como: Derrida, Kristeva, Sollers e uma infinidade de outros), suas cartas, manifestos, teatro, nada disso ele queria ter escrito? Para ele “toda escrita é porcaria”. Tudo que não fosse vivido/respirado/sentido, não valia.

Selecionei um único trecho de um texto em que ele defende o ópio (sim, Artaud viciou-se cedo). Não é uma apologia às drogas: é um olhar tão apurado sobre a vida e o mundo que eu ousaria dizer que nada tem a ver com o ópio propriamente dito.

“SEGURANÇA PÚBLICA – A LIQUIDAÇÃO DO ÓPIO

Tenho a intenção declarada de encerrar o assunto de uma vez por todas, para que não venham mais nos encher a paciência com os assim chamados perigos da droga. Meu ponto de vista é nitidamente anti-social. Só há uma razão para atacar o ópio. Aquela do perigo que seu uso acarreta ao conjunto da sociedade.

Acontece que este perigo é falso.

Nascemos podres de corpo e alma, somos congenitamente inadaptados; suprimam o ópio: não suprimirão a necessidade do crime, os cânceres do corpo e da alma, a inclinação para o desespero, o cretinismo inato, a sífilis hereditária, a fragilidade dos instintos; não impedirão que haja almas destinadas a seja qual for o veneno, veneno da morfina, veneno da leitura, veneno do isolamento, veneno do onanismo, veneno dos coitos repetidos, veneno da arraigada fraqueza da alma, veneno do álcool, veneno do tabaco, veneno da anti-sociabilidade. Há almas incuráveis e perdidas para o restante da sociedade. Suprimam-lhes um dos meios para chegar à loucura: inventarão dez mil outros. Criarão meios mais sutis, mais selvagens; meios absolutamente desesperados. A própria natureza é anti-social na sua essência – só por uma usurpação de poderes que o corpo da sociedade consegue reagir contra a tendência natural da humanidade.

Deixemos que os perdidos se percam:  temos mais o que fazer que tentar uma recuperação impossível e ademais inútil, odiosa e prejudicial”.

Aqui só um pequeno trecho. Leiam também  a “Carta aos reitores das Universidade européias” para entender a relação dele com o conhecimento.

Demorei tempo demais para tomar coragem e ler Artaud: de corpo inteiro. E enquanto relia esse texto de ópio-vida, me lembrei do Soma de Huxley: é, Admirável Mundo Novo – cada vez mais velho, e com tão pouca sabedoria.

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