BEATRIZ PRECIADO ou Paul Beatriz Preciado (a partir de janeiro de 2015)

Não há como falar do Manifesto Contrassexual da(o) filósofa(o) espanhola Beatriz Preciado (que em 2015 acrescentou Paul ao seu nome, não como mudança de “sexo” – esse ser-corpo desconstrói toda e qualquer teoria a respeito de sexo/gênero/sexualidade – mas como forma de subversão das instituições: inclua-se aí nome, sexo e identidade – artigo 2 do seu Manifesto), sem um imenso percurso em todo o seu pensamento, que não fica apenas na teoria. Ele faz parte dos filósofos que, como Walter Benjamin, usaram seus corpos como material de pesquisa. A outra obra dessa filósofa (sim, a oscilação ao longo desse pequeno comentário, entre o gênero masculino-feminino é proposital, para confundir, desconstruir, subverter a ordem), “Testo Junkie: Sexo, drogas e Biopolítica na Era Farmaco-pornográfica”, a sair pela mesma editora n-1 edições ainda em 2015, traz a experiência de usar testosterona (“intoxicação voluntária”) por 236 dias e fazer do seu corpo uma experiência filosófica/existencial. Beatriz acredita que os corpos não sejam simples superfícies, mas plataformas. Leitura obrigatória.

Voltemos ao Manifesto. A contrassexualidade rompe com os binários homem/mulher, homossexualidade/heterossexualidade, masculino/feminino, etc.

“A contrassexualidade afirma que o desejo, a excitação sexual e o orgasmo não são nada além de produtos que dizem respeito a certa tecnologia sexual que identifica os órgãos reprodutivos como órgãos sexuais, em detrimento de uma sexualização do corpo em sua totalidade” (p. 23).

O Manifesto, de irônico à inspirador, nos arranca de nossas zonas (erógenas) seguras e nos joga num jardim das delícias, não Paraíso Perdido, mas ainda não encontrado. O que escreve o texto não é a pena, a caneta, o útero ou as ideias: é o dildo. Sim, o Manifesto é escrito por esse “sexo de plástico”, numa Dildotectônica que “se propõe identificar as tecnologias de resistência (que, por extensão, chamaremos de ‘dildos’) e os momentos de ruptura da cadeia de produção corpo-prazer-benefício-corpo nas culturas sexuais hétero e queer” (p. 49).

Mas para entrar no mundo do Manifesto, a(o) leitor(a) deve renunciar a tudo aquilo que acreditava, desvestir-se de suas certezas, e assinar o contrato contrassexual:

E não direi mais nada: esse é um livro que deve ser levado para cama. Literalmente.

p.s. A n-1edições (www.n-1publications.org) fez um livro primoroso. Tocá-lo é como. (não, não vou dizer “fazer sexo, fazer amor”). Tocá-lo é como fazer gozar o dildo.

p.s.2. Paul Beatriz Preciado foi aluna prodígio de Jacques Derrida.

“Se sou homem ou mulher? Esta pergunta reflete uma obsessão ansiosa do ocidente. Qual? A de querer reduzir a verdade do sexo a um binônimo”.

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