Manoel de Barros foi um poeta brasileiro falecido em 2014 (Vida e obra – Wikipedia).

Quando li a “Ode vingativa” do poeta, lembrei de um dos ‘Dies Irae’ da Clarice (Texto no blog).

Mas hoje é dia de anacreôntica, então vamos à ode do Manoel:

 
“Ela me encontrará pacífico, desvendável
Vendável, venal e de automóvel.
Ela me encontrará grave, sem mistérios, duro
Sério, claro como o sol sobre o muro.

Ela me encontrará bruto, burguês, imoral,
Capaz de defendê-la, de ofendê-la e perdoá-la;
Capaz de morrer por ela (ou então de matá-la)
Sem deixar bilhete literário no jornal.

Ela me encontrará sadio, apolítico, antiapocalíptico
Anticristão e, talvez, campeão de xadrez.
Ela me encontrará forte, primitivo, animal
Como planta, cavalo, como água mineral”.

Mastigo com fome a poesia do Manoel, com uma fome tão primordial quanto uma antepassada palavra que nem lembro qual. Eu caminho entre seus poemas como quem busca uma vida assim, no meio do mato, rústica, de pedra. Eu, invadida por (h)eras, eu, corroída por Barros, me deixo habitar por passarinhos e cupins, e caramujos são meu relógio de pulso.

Deixo a ferrugem me percorrer… E lembro que “girassóis têm dom de auroras”, e que “melhor para entardecer é encostar em árvore”.

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